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Hermenêutica onírica

Eu sabia que era errado e que não devia estar ali. Lembranças de uma outra vida ardiam nas minhas saudades, atesouradas naquele instrumento atropelado pelo correr das máquinas... Eu sabia que era errado, mas tudo fez sentido quando ela abriu a porta do quarto e fechou-a atrás de si, atravessando com mais ânsia que cuidado uma passagem ao proibido. Se eu fazia parte de um seleto grupo sobre o qual não sabia nada, era por ela. E sequer a conhecia. Não hesitei, todavia, em me lançar a seus braços. Tanto tempo havia se perdido... Eu continuava a mesma menina, atordoada com as inconsistências, com as inconsciências dos sentidos... e nela algumas rugas sobressaltavam aos óculos de leitura, rios entrecortados de águas escuras.   Nesse primeiro contato talvez ela fosse mãe, talvez o afago protetor me dissesse que tudo ia se acertar. Mas outro algo me refletia seus lábios molhados de vida que me convidavam a ir mais além das minhas dúvidas; lábios aos quais colei os meus com mais r...

Ciência ficção

Será apenas um jogo.  O letreiro em bytes mordiam nossos olhos em néon . Novos começos, novos mundos, a tela em branco. Será apenas um jogo.  Casas de dados que se erguem pessoas prontas que nascem deixando-se aos montes do túmulo do presente porque o hoje é o amanhã e chegamos ao borde do pós-abismo.   É apenas um jogo.  As animas sugadas por cabos de energias ligados a um computador maior que nós agora em comunhão com o deus ex Deus que sorri eletricidades ostentando seus dentes regulares de equações quânticas.    É apenas um jogo.  O verbo que se fez carne se desintegrou em código e se fez imagem da carne tornando as distâncias maiores ainda.   Seria apenas um jogo.   Se a guerra real pelos territórios imaginados não tivesse vindo se o poder não fosse reclamado à moeda se a loteria da babilônia não nos tivesse asfixiado em suas combinações impensáveis e por isso abomináveis.   Era...

Parada

, e então ela passou - um pedaço do incontável - ou fui eu que passei?... Sussurrando sempre suave ao meus ouvidos, em perfeira harmonia com o que eu quis quando sabia querer. Não é isso o verdadeiro amor? Tinha nos olhos as compreensões mais harmônicas dosadas com aquela tristeza sensual em sorriso de Gioconda dançando atrás de cortinas e cortinas. E tive três minutos da mais clara felicidade esquecida no canto do ônibus, com a alma voltada para fora, projetada em janelas para o impossível real de uma ideia não pensada. E então ela saiu das minhas vistas, parada no momento que eu não consegui guardar .E. No vazio deixado pela sua presença as coisas foram caindo outra vez no lugar, pouco a pouco, passo a passo, cinzentas e mudas, estridentemente confortáveis como desde sempre.

Infância

... e seria uma tarde como outra qualquer se os dias não lhe fossem tão mágicos. Olhava pela janela a sutileza de Morfeu estendendo seu mando no céu, para fazê-lo da mesma maneira em seu quarto que não era um quarto do mundo senão o mundo e mais um quarto. Através do verbo Criador, tecia gravemente, como convém a um deus, ponto a ponto, linha a linha, a colcha de um planeta que não necessitava de sete dias para ser criado. Mais generosa, ainda, povoava seu paraíso de infinitas invenções de pessoas, com direito, inclusive, ao livre-arbítrio que elas mereciam. Mais humilde, certamente, vivia no meio delas, nem melhor nem pior, nem mais densa ou menos densa. Talvez menos... E o tempo, seu amigo violinista, se desenlaçava em diferentes sinfonias de tons coloridos, muito bem contorneadas de Sol Maior. Nesta tarde, saindo do seu quarto, coisa que quase não fazia, na sala jazia a prima por debaixo de um menino que lhe subia a saia com a naturalidade de quem há muito o fazia; a mesm...

Café

Sei lá o que ele esfregava naquele sapato que tinha sobre a cabeça! Talvez limpasse o passado passando o pano em compasso com seus espasmos. Talvez se convertia em objeto direto subordinado ao sujeito que se sentia principal. Não sei. Eu me encontrava bastante preocupada concentrada com o problema do cabelo no meu rocambole. Caralho! Não há lugar decente no mundo...

Unicentro krra 10 y 15

Que à primeira vista fez meu tédio escorrer arranhando meus olhos. Não tinha sequer a companhia macia do sossego velando minhas confusões a caminho do trabalho. Subiu arrastando as pernas batidas deixando um rastro de pó sinuoso na passarela. As mãos vazias verdes violentados. Era cantor de boleros, e sua voz entrou quebrada aos meus ouvidos, o que me fez um ponto de interrogação cubista no semblante. Mas antes que eu pudesse desfazer-me, ele se desnudou em nossa frente, espectro inevitável da angústia, morta viva que se recusava a morrer. Sua voz eram raízes escuras que jamais chegariam à superfície, à luz de plástico e espuma, e, coicidentemente, nesse momento rodeávamos uma praça de árvores vermelhas artificiais. Era um filme rodado pelo absurdo. Ele pedia o beijo de uma niña, como quem pedia o beijo ardente da morte fria para fazer parte de algo, mesmo que o algo seja o não seja. Cantava lágrimas pesadas de tristeza, turvas dos machucados da vida, mãe e inimiga, se equilibrando rid...

Evocações

Um tapete de possibilidades estendido sobre manhãs consecutivas de vogais abertas. Cheiro de algodão das vozes de minha mãe e de meu pai. Gosto de café. Gritos finos compridos com cores de bala da sorte. Noite de lua nua povoada de amigos verdadeiros inventados. O mundo, Ying yang de tons contentes... Para a vida: eu. Para a morte: Deus. E o céu e a eternidade, certezas de músculos e sangue feitas pelo sol que me batia direto nos olhos. Eu era feliz e nada estava morto.

Contemporaneidade

Nem a Aranha, que tecia tão cuidadosamente sua rede, havia se dado conta de que os unira, naquele ponto, numa calçada de uma rua sem número. Não havia nada que ela falasse e ele não entendesse, tanto que, no fim da primeira hora de conversa, seus planos era um quadro de Rafael. Tantas coisas em comum... o gosto pelas artes, o sentir do toque do mundo, o desenho do fututo...Tantas coisas em comum... Tantas e tantas coisas... De repente se deteve. Tantas coisas em comum? Ai, não...

Circulado

Fumava um cigarro de possibilidades enquanto caminhava nervosamente desenhando o infinito no chão do quarto. Esperava... enquanto via na fumaça delgada espectros do que eu pensava que sonhava... Foi quando te vi,por um acaso minuciosamente arquitetado, passar lentamente pela fresta da porta que eu havia riscado, e me vi acenando rapidamente com um brilho nos olhos que nunca havia planejado. Corri e corri... Se eu te alcancei, não sei. As paredes são as mesmas, o quarto é o mesmo, o desenho cada vez mais profundo... Todavia descobri que realmente odeio fumar...

Obsessão poética

Me apaixonei perdidamente por uma poesia. Primeiro a conheci por acaso, ela se encontrava vestida singelamente num canto da livraria onde eu costumava frequentar... passei a voltar lá todos os dias para revê-la, cada dia com uma desculpa mais absurda. À noite, sonhava com ela, acordava suado e só sossegava com um banho de água fria. E ela tomava conta da minha vida gradativamente... até que, cego na minha obsessão, tirei-a daquela livraria e levei-a para minha casa. Possuí-a ali mesmo, numa ânsia desesperada, querendo trazê-la para dentro de mim... A partir daí não fazia mais nada se ela não estivesse comigo. Passei a levá-la em todos os lugares e apresentá-la aos meus amigos. Entretanto, quando notei que alguns se interessavam por ela, meu coração, em vez de sangue, jorrava fel nas minhas veias, e passei a escondê-la em locais sempre mais excêntricos, de modo que só eu a visse. Comecei a frequentar todas as livrarias e bancas onde ela poderia estar, entre um copo de cer...

Aéreo porto

No primeiro dia ela era só a garota com um livro na mão no aeroporto, por quem passei correndo a fim de gastar menos possível da moeda do meu tempo. No segundo dia ela levantava aqueles grandes olhos azuis, me sorria, e eu quase morria afogado. No terceiro dia ela acenava pra mim, o cabelo longo bagunçado pelo vento. Eu ia até ela que me beijava longamente e começava a me contar uma série de histórias ocorridas durante minha ausência. Me pegava pela mão e todas as minhas moedas caíam e se espalhavam silenciosamente aeroporto afora. No quarto dia ela estava em um canto, o cabelo curto lhe caindo sobre os olhos negros atentos no livro. Eu chegava perto, ela sorria, me abraçava, sem dizer uma palavra, e a vida era só um quadro em combustão... No quinto dia mudaram minha rota