Penelope

A tecelã do meu destino
tece distraidamente uma colcha com fios de bruma
as vezes num desatino
desfaz o tecido sem razão alguma.

Talvez a agulha escorregue de seus dedos
talvez ela se fura e desiste, por medo
mas eu não vejo nada disso, só o degredo
do tecido à minha frente se desfazer sempre tão cedo.

Corro de volta o mais rápido que posso
do furacão de fios que vejo atrás de mim
é terrível a visão que tenho do fosso
penso tudo, mas me recuso a ver o fim

E quando estou balançando no último fio
prestes a me deixar cair lá embaixo, no rio
o serviço recomeça, estranhamente, tardio
e me força a andar o caminho, novamente, vazio.

Comentários

Narradora disse…
Lindo poema.
Visual e ritmado, vem num crescente que dá um susto de abismo e um alívio de recomeço (mesmo estando vazio o caminho).
Bjs
Wagner Marques disse…
aí, me ardeu viu!!!

amei o poema...
violento, mulher...

muito bom mesmo.

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